Casa do Aconchego completa um ano com resultados significativos na vida dos idosos

Texto: Sibele Oliveira

Dizem que as boas ideias surgem de repente. Foi o que aconteceu com a Casa do Aconchego, projeto que nasceu para cuidar de quem já passou dos 60 anos. Tudo começou quando a enfermeira Priscila Biggi, funcionária da Cruz Vermelha, pediu autorização para realizar o desejo antigo de tratar ferimentos de pessoas mais velhas. O espaço não era problema. O ambulatório seria instalado no segundo andar do prédio que antes abrigava os cursos de estética. Muito menos a estrutura e os materiais cirúrgicos. Ela se encarregaria de conseguir tudo.

Só que ao conversar com os idosos, Priscila percebeu que eles tinham não só feridas na pele, mas também na alma, resultado do descaso que sofrem no fim da vida. Então o objetivo da enfermeira passou a ser mais amplo: fazer com que eles se sentissem cuidados e valorizados. O projeto final foi imediatamente aprovado. “Essa iniciativa vai ao encontro dos objetivos da instituição e das nossas estratégias, inclusive internacionais. Com o aumento da expectativa de vida dos idosos, a Cruz Vermelha precisa fazer algo por eles”, afirma Aline Rosa, gerente de projetos sociais e voluntariado.

Priscila selecionou a equipe, toda formada por voluntários, e criou uma rede de apoio que doou tudo o que era necessário para as seis salas do espaço, desde macas, cortinas, esteira, sofás, até insumos médicos. Assim que tudo ficou pronto, a Casa do Aconchego foi inaugurada, no dia 04 de outubro de 2017. Aos poucos os idosos foram chegando. No início eram apenas quatro. Hoje, pouco mais de um ano depois, são mais de 100 frequentadores, e ainda há gente na fila de espera. O número cresce a cada dia porque depois de sentirem parte de uma nova família, disposta a dar amor e atenção, eles não querem mais ir embora.

Todas as quartas e quintas-feiras as portas da Casa do Aconchego se abrem para velhos de várias partes da cidade, de comunidades pobres, como a Jova Rural, o Jardim das Camélias e o Jardim Ângela, a bairros nobres, como Indianópolis e Vila Mariana. Uns não têm falta de dinheiro e outros contam os centavos para sobreviver, mas a vontade de reencontrar um sentido para a vida iguala a todos. E essa é a tarefa de psicólogos, nutricionistas, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, enfermeiros e terapeutas complementares, que fazem sessões de reiki, acupuntura, auriculoterapia, cromoterapia, reflexologia e moxabustão. Os frequentadores ficam lá o dia inteiro e ainda ganham café da manhã, almoço e lanche da tarde.

FIM DA LINHA PARA A SOLIDÃO

Nem todos têm facilidade para chegar à Casa do Aconchego. Os que moram perto vão a pé, outros são levados pelos filhos e há aqueles que passam horas dentro de ônibus, trem ou metrô lotados para recuperar algo que perderam com a idade: o direito de falar e ser ouvido. “Às vezes nem é o fato de ficar sozinho, mas não ter pessoas em casa que conversem com eles, já que os filhos e netos não têm mais paciência. Eles têm limitações, esquecem o que aconteceu, contam duas vezes a mesma história, perguntam várias vezes a mesma coisa e só escutam xingamentos. Sentem falta de serem tocados, de um abraço, de carinho”, conta Priscila.

Muitos deles têm sequelas de doenças como o AVC, infarto e Alzheimer, tiveram algum membro do corpo amputado ou carregam lembranças de agressões físicas e psicológicas. A missão da equipe da casa do Aconchego é fazer com quem eles esqueçam qualquer sofrimento enquanto estão lá. Para isso, comemoram aniversários, promovem festas em datas comemorativas e no fim do ano, organizam coral, apresentações musicais, teatro, dança circular e oficinas de memória, que incluem ditados, jogo dos sete erros e cálculos matemáticos básicos. São momentos de alegria que os abastecem para toda a semana.

Benedita Ferreira Venâncio, de 68 anos, conseguiu espantar a depressão que a ameaçava frequentando a Casa do Aconchego. Ela mora no Jardim das Camélias, periferia da zona leste de São Paulo, e encara essa distância em busca de tratamento para as dores físicas e emocionais. “A gente aprende de tudo aqui, faz muitas amizades e todos aqui se doam para nós. Não há remédio maior para uma pessoa da terceira idade do que o amor e o carinho. A idade nos deixa carentes. A gente cria os filhos com tanto amor e carinho e às vezes não têm o que necessita deles. Aqui a gente encontra o que não tem em casa”.

Histórias de quem frequenta a casa

Quem convive com os idosos da Casa do Aconchego se surpreende com tantas histórias de vida e de luta. Seu Eurico, de 92 anos, chegou de braços dados com a mulher e ambos acompanhados de uma filha. Embora dona Nancy fosse doze anos mais nova, a doença de Alzheimer tinha roubado sua autonomia. Por isso dependia do marido até para trocar de roupa. Quando ela faleceu, seu Eurico não conseguiu mais voltar ao lugar em que a esposa se sentia tão bem. Sem a companheira de toda a vida, preferiu se isolar e passar o tempo que lhe resta em casa.

Outra que enfrenta uma batalha por dia e busca forças na Casa do Aconchego é Creuzalita Pereira dos Santos, de 75 anos. Ela paga aluguel de 700 reais da casa onde mora no Jardim Ângela, sustenta um filho e um neto que estão desempregados, e banca todas as despesas da família com um salário mínimo que recebe de aposentadoria. Como o dinheiro é pouco, é obrigada a completar a renda vendendo balas e doces na rua. Chegou à Cruz Vermelha muito magra e com uma tristeza infinita por causa dessas dificuldades. Nem ela mesma acredita como foi possível melhorar tão rápido. “Se existe o paraíso, essa casa é o paraíso. Gosto de tudo aqui. Se eu não tivesse vindo para essa casa, já tinha morrido. Aprendi a ser mais paciente”.

Parece simples demais dizer que amor, respeito e valorização são suficientes para devolver aos idosos a vontade de viver. Mas, segundo Priscila, essa receita é poderosa. Ela diz que muitas vezes carinho e atenção curam mais do que as terapias. Por isso sonha conseguir mais voluntários para que a Casa do Aconchego fique aberta de segunda a sexta-feira. E também quer montar uma equipe itinerante para levar o serviço a quem tem problemas de mobilidade ou no caso de pessoas como seu Eurico, que não tem ânimo para sair de casa. Para a enfermeira, é preciso multiplicar iniciativas que tirem as pessoas mais velhas da invisibilidade. “Os idosos são maltratados, negligenciados, abandonados pelo Estado. Às vezes as próprias famílias acham que eles são um estorvo. Não são vistos por ninguém”.

Veja o depoimento da Creuzalita dos Santos: