Maria Rennotte e sua trajetória na medicina social

Atualmente poucas pessoas saberiam dizer quem foi Maria Rennotte, uma das pioneiras da medicina social no Brasil. Seu nome tornou-se conhecido na sociedade paulista no início do século XX devido à sua militância pela ampliação dos direitos das mulheres e a seu envolvimento em campanhas de cunho assistencial, voltadas aos menos favorecidos.

Relembrar a história de Maria Rennotte nos faz retornar em algum momento às origens da Cruz Vermelha na cidade de São Paulo. Muitos também não sabem, mas a médica foi responsável pela fundação da filial em 1912 e instalou um curso para enfermeiras com base em um de seus Princípios Fundamentais: o Voluntariado. Anos mais tarde, estruturou ainda o Hospital de Crianças, primeiro do gênero no País, empreendimento da Cruz Vermelha de São Paulo sob a liderança de Maria Rennotte.

Seu trabalho social, porém, começou muito antes de todos esses feitos. Nascida na Bélgica em 1852, Maria Rennotte fez o curso de Magistério em Paris, na França, e lecionou por três anos na Alemanha. Mudou-se para São Paulo em 1878 e deu aulas no Colégio Piracicabano, no interior do Estado. Já ativa na luta pela emancipação feminina, colaborava com artigos para o jornal A Família, publicação feminista editada por algumas das mais conhecidas escritoras brasileiras.

Nessa época, a função de professora era uma das poucas consideradas respeitáveis para mulheres, o que explica o fato de Maria Rennotte ter optado por mudar de profissão apenas aos 40 anos, em 1889. Escolheu estudar Medicina na Women’s Medical College of Pennsylvania, universidade dos Estados Unidos destinada exclusivamente a mulheres e, de volta ao Brasil em 1895, revalidou seu diploma na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro com uma tese a respeito da influência da educação da mulher sobre a medicina social.

 

Fundação da Cruz Vermelha em São Paulo e da Escola Prática de Enfermeiras

Túmulo Maria RennotteAos poucos Maria Rennotte foi conquistando espaço na nova área de atuação, tendo trabalhado na Maternidade São Paulo, cujo objetivo era amparar gratuitamente mulheres grávidas mais carentes, e na Clínica Cirúrgica da Enfermaria de Mulheres da Santa Casa de Misericórdia. Por volta de 1910, visitou a Europa a pedido da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo com o objetivo de observar a Cruz Vermelha em alguns países e obter informações para a organização de uma filial em São Paulo.

Entusiasmada com o trabalho desenvolvido em regiões como França e Alemanha, empenhou-se na fundação da instituição na cidade, fato que ocorreu em 05 de outubro de 1912 e foi noticiado pelo jornal Correio Paulistano como a realização do “sonho dourado” de Rennotte. A entidade teria como missão atenuar e prevenir o sofrimento humano com toda imparcialidade, sem distinção de raça, sexo, religião, nacionalidade, nível social e opinião política.

Naquele mesmo ano, a médica criou uma Escola Prática de Enfermeiras, ideia que vinha defendendo desde a década de 1890. Localizada inicialmente na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e transferida para a então sede da Cruz Vermelha na rua Líbero Badaró, a escola oferecia cursos de enfermagem profissional, samaritanas (voluntárias), enfermagem do lar e primeiros socorros, com aulas ministradas por Maria Rennotte e pela Dra. Casemira Loureiro, também médica da Santa Casa. Em decorrência da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), da Revolução Constitucionalista (1932) e da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a Cruz Vermelha conquistou lugar de destaque no preparo de enfermeiras voluntárias, intensificado com cursos de urgência, como o de socorristas.

Segundo Maria Lúcia Mott, Doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP), e Maria Alice Tsunechiro, Enfermeira e Doutora em Enfermagem também pela USP, o início da enfermagem profissional no Brasil é um tema pouco explorado e, com isso, consolidou-se a imagem de que esta seria a primeira e única escola de enfermagem capacitada para formar profissionais nas primeiras décadas do século XX.

Passado o período de guerra, o curso para voluntárias foi reestabelecido com o nome de curso de samaritanas, destinado a moças e senhoras que, não desejando seguir a profissão de enfermeiras, tivessem interesse em colaborar para a obra de assistência e filantropia da Cruz Vermelha. Entretanto, várias mulheres também deram continuidade aos estudos no curso profissional, destinado a candidatos de ambos os sexos que desejassem seguir a profissão de enfermeiro, obtendo o diploma em três anos.

 

Assistência hospitalar: Hospital de Crianças

Ainda em 1912, Maria Rennotte lançou duas outras campanhas: uma voltada à instalação de uma enfermaria para a cura de doentes pobres e outra em favor da criação de um hospital exclusivo para crianças, dada a alta taxa de mortalidade infantil em São Paulo e a precariedade de meios existentes no sistema de saúde para o cuidado a esses enfermos.

Se por um lado o primeiro projeto não foi adiante, a ideia do hospital recebeu apoio de médicos e políticos e resultou na fundação do Hospital de Crianças, que funcionou até a década de 1980. Segundo Maria Rennotte, se cada uma das 176 mil crianças matriculadas nas escolas primárias do Estado de São Paulo contribuísse com um tostão por mês, seria possível não só construir, mas manter o hospital. A inciativa conquistou os cidadãos, que não mediram esforços em prol do movimento humanitário.

Com o aval do então Secretário dos Negócios do Interior, Altino Arantes, foram colocadas caixas para arrecadação nas escolas, o que rendeu a quantia de nove contos e 500 mil réis utilizada nas obras. A Companhia Territorial Paulista ofereceu um terreno em Indianópolis e, depois de construído, o hospital começou a funcionar em 1917, permanecendo em atividade até 1983.

Na década de 1960, o local já alcançava 6.159 internações por ano, de acordo com dados estatísticos de relatórios da Cruz Vermelha, período em que passou a ser visto como uma escola de pediatria. O Hospital de Crianças também foi considerado referência pelo Centro de Estudos do Departamento de Anatomia Patológica da Faculdade de Medicina da USP.

 

Fim da vida em São Paulo

Registro do Cemitério dos Protestantes sobre Maria RennotteSe naquele tempo as ações de benemerência eram consideradas legítimas para as mulheres, Maria Rennotte as entendia como um dever cívico. Já no final da vida, nos anos 1930 e 1940, a médica que sempre batalhou pelos menos favorecidos encontrava-se quase cega e surda, doente e pobre, de acordo com informações do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, da qual Rennotte foi sócia por quatro décadas. Morreu aos 90 anos de idade, em novembro de 1942, em São Paulo.

Embora aspectos de sua vida doméstica ou familiar ainda permaneçam obscuros, sua trajetória de grandes realizações na esfera pública por mais de sessenta anos no Brasil renderam inestimáveis contribuições para a sociedade da época, especialmente no campo assistencial. E esse legado sustenta-se até os dias hoje, com o fortalecimento e ampliação das ações humanitárias da Cruz Vermelha no Estado de São Paulo.

Fontes:

– Livro Cruz Vermelha Brasileira – Filial do Estado de São Paulo: Formação em Tempos de Paz, de Taka Oguisso, Vanderli de Oliveira Dutra e Paulo Fernando de Souza Campos;
– Artigos Maria Rennotte e a luta médica e De educadora a médica: trajetória de uma pioneira metodista, de Maria Lúcia Mott.